Alzheimer: conheça a história inspiradora de Hevelyne e sua tia Corália.

INSPIRAÇÃO: Acolhimento, paciência e muito amor para tratar pessoas com Alzheimer

Quando descobri que ela tinha o Alzheimer,  comecei a ler muito sobre… e vi que todo conteúdo disponível acabava incentivando o familiar a abandonar o idoso que sofre com a doença. Pensei: que horror! Foi assim… que em setembro de 2014 decidi abrir mão do meu trabalho; era hora de retribuir tudo aquilo que minha tia havia feito por mim no passado, quando acompanhou meu crescimento e criação. Eu estava prestes a fazer o mesmo por ela. Dentro desse período fiz reflexões sobre minha escolha e sobre a melhor forma de conviver com ela. E foi aí que decidi assumir gargalhadas como filosofia. Eu não ia conseguir cura-lá,  mas a gente iria rir à beça! Foi assim que percebi que não foi preciso abandonar a minha vida para cuidar da minha tia, eu simplesmente a inseri na minha vida. E hoje a nossa mensagem é: “aquele esquema de espremer o positivo de qualquer limão azedo que a vida nos joga na nuca”.

Descobri com ela que é preciso viver de AMOR e HUMOR, pois dessa forma é possível.  É uma receita que felizmente abrange outras dificuldades da vida. Faça a diferença…. Mostre você que por meio de uma relação apaixonante,  podemos transformar qualquer quadro da vida. Não é fácil, e ninguém disse que seria, mas é uma realidade crescente no cenário em que nos encontramos. Nós estamos vivendo mais, e isso é maravilhoso; mas ao passo que envelhecemos,  vamos voltando a ser crianças. E foi com o Alzheimer que aprendi a dar banho, trocar a fralda, fazer comida, levar para passear e até cantar o boi boi boi…. boi da cara preta… 🎵 Isso é surpreendente e não tem nada no mundo que pague esses momentos. Não é fácil, mas é gratificante.

De repente eu precisava saber de tudo  sobre uma doença que até então não me dizia nada, e essa foi a parte mais tensa do processo.

Iniciou-se para mim uma busca incessante por informações. O que aconteceria? Ela poderia morrer, vítima da doença?  Quantas pessoas mais da família teria a doença?  Existia alguma possibilidade de cura ou tratamento? E o pior: quanto tempo tinha?

Até hoje quando falo que minha tia sofre de ALZHEIMER – acredite isso é assunto permanente – as pessoas comentam: “Ah,  sim, ela esquece as coisas ne? Sim, ela esquece as coisas, mas quem dera a doença fosse só esquecimento. As pessoas tem que entender que ela pode até lembrar daquilo que comeu com 5 anos de idade e esquecer daquilo que comeu hoje no café da manhã, mas vai muito além disso.

A doença foi tirando ela da gente…

Tirando as melhores histórias que uma tia alegre e brincalhona tem para contar.

Ela mora comigo e o dia a dia é pesado… Mas é gratificante.

Saio de casa e a deixo com suas cuidadoras, mas ao retornar para casa, volto cheia de saudade.

Saudade de encontrar minha tia, ali mesmo, dentro da minha tia, no corpo e na mente boa que sempre teve.

Ela não sabe mais meu nome. Mas sei que quando me olha, ela se lembra de mim, sabe por quê? Porque seus olhos brilham de tanto amor… ela não lembra do nome, mas sabe do quanto a amo.

Aí surge a pergunta: o que é que a gente é quando a gente não se lembra de mais nada? Pra onde “a gente” vai?

Cada segundo é o único tempo-presente que existe, e que no único segundo, já não vai existir mais.

Hoje ela tem bonecas de pano que cuida com tanto amor e não dorme sem, algumas roupas, e sua maior felicidade é passear de carro (sem sair do carro) e comer doce. Doce, sempre doce.

Agora essa é minha tia.

Daqui a um segundo, eu já não sei mais.

Mas eu lembro por você… Uma mulher guerreira e batalhadora que sempre foi.

A mulher que sempre viveu com o pouco que  tinha e batalhava para ter, porque sabia que não precisava de muito dessa vida, porque dela não levamos nada.

Ninguém vai tirar a sua grandeza e sua coragem.

Essa é a minha tia.

Ela é o amor da minha vida, mas não sabe disso.

Mas não tem problema… o que importa é que lembro dela e a amo com a mesma intensidade.

Alzheimer é  muito mais que resgate da memória passada e perda de memória  recente. Em uma sucinta explicação,  ela caracteriza-se como uma doença crônica,  progressiva e incurável que afeta a cognição do portador. Aqueles processos básicos que todos temos como automáticos (atenção,  memória,  julgamento moral, linguagem,  criatividade, inteligência,  capacidade motora…) sofrem interferência e depreciação, vítimas da doença. E foi assim que começaram a surgir algumas dúvidas que incomodavam bastante, uma delas me visitava frequentemente: até quando eu seria a sobrinha querida que ela tanto amava? Quando o tempo me apagaria por completo? Há 5 anos atrás ela era para mim a representação física do frágil,  e eu, na posição de sobrinha coruja, me sentia na obrigação de protegê-la assim como ela lutara por mim, mas me colocar nessa situação era tão frustrante… como defenderia alguém de um inimigo não impalpável?  Imaginar aquela pessoa especial a buscando na memória (quem é essa moça? ) seria inconcebível.  Seria que ela ia mesmo esquecer de quem amava? A gente sempre tem aquela esperança: ah talvez ela não esqueça de mim….eu sou tão importante para ela. Esqueça isso….ela não escolheu esquecer de você, não é culpa dela…

Precisava estar bem comigo para que pudesse cuidar dela.

Incomodada com tudo, tive as mais diversas reações.  Quase sempre revolta.  Se antes eu me perguntava o que aconteceria com ela, agora eu me perguntava os motivos pelos quais isso iria acontecer. Era justo? Porque justamente com ela? Eu não aceitava de forma alguma, e isso pesava. Com o tempo, aprendi que existiam apenas 2 caminhos: ou do bom h umor ou o da severidade. E foi aí que escolhi o caminho do bom humor,  onde utilizava a gargalhada como ferramenta e inclusive como terapia. Rir diminui os níveis de estresse….e quem sabe até atrase os sintomas do Alzheimer e de outras doenças do cérebro…e com certeza melhora a qualidade de vida de todos os envolvidos. Esse é o caminho, mas óbvio que encarar a desgraça com um sorriso na cara não é uma tarefa fácil.  E lembre-se: “amar não é uma lembrança,  é uma regra da alma.”

Quando passei a utilizar com ela a terapia do bom humor, tudo mudou…

 

Observação: Esse é o Relato de Hevelyne Cavalcante uma cliente do grupo Casa do Médico, a mesma autoriza a divulgação desse conteúdo em nossas plataformas de comunicação

 

Um Comentário em “Alzheimer: conheça a história inspiradora de Hevelyne e sua tia Corália.

Maria de Fátima Fôlha Rodrigues Barbosa
9 de julho de 2019 em 15:07

Conheço essa história de perto. Foi e é exatamente assim. Foi muito de repente. Tia Coralia sempre foi uma mulher dinâmica guerreira e aí veio essa doença que a deixou assim como Heveline tão bem descreveu. Mas o amor e o humor dessa menina que a trata com um amor tão grande e incondicional é tão lindo tão verdadeiro que nos emociona e impressiona.Heveline Deus te abençoe e te fortaleça a cada dia. É linda demais a história de vida de vcs.

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